Roberto Quartin: 15 anos de irreparável perda, por Marcelo Pinheiro

Morto em 2004, o produtor carioca deixou, no entanto, um legado inestimável no acervo de suas gravadoras Forma e Quartin

Por Marcelo Pinheiro*


O que álbuns históricos como Coisas, a obra-prima do maestro pernambucano Moacir Santos, Inútil Paisagem, a estreia fonográfica do prodígio Eumir Deodato, Novas Estruturas, o petardo em forma de bossa-jazz de Luiz Carlos Vinhas, pianista e “cérebro” do Bossa Três, Os Afro-Sambas, o cultuado clássico de Baden Powell e Vinícius de Moraes, e Muita Zorra! (… São Coisas Que Glorificam a Sensibilidade Atual), a joia inaugural do Trio Mocotó, têm em comum? Questão de origem, todos foram lançados com o primor estético e o requinte técnico que tornaram legendário o pequeno selo Forma.

Extinta em 1972 (os direitos sobre as obras foram vendidos à Polygram e hoje estão em poder da Universal Music), a Forma foi fundada pelo jovem produtor carioca Roberto Quartin quando ele tinha apenas 20 anos de idade. Nesta quinta-feira (25), são completados 15 anos de sua precoce partida quando, em 25 de abril de 2004, aos 60 anos, Quartin foi vitimado por uma parada cardíaca fulminante.

Em reverência às contribuições do produtor, a Dublab Brasil registra aqui uma homenagem à memória desse personagem divisor para a evolução estética da música popular brasileira.

As bossas do Quartin

Com a explosão da bossa-nova e a consolidação de novos compositores e intérpretes assemelhados pelo ímpeto vanguardista, artistas que diretamente influenciaram o surgimento de uma vigorosa cena instrumental de trios, quartetos, quintetos e sextetos de bossa-jazz (ou samba-jazz, como preferem alguns) no eixo Rio/São Paulo, a música brasileira estava em plena ebulição durante a transição dos anos 1950 para os 60.

Ambiente orgânico que, consequentemente, também foi propício para o surgimento de pequenas gravadoras com propostas modernizantes, como a paulistana Farroupilha, que lançou o Jongo Trio, grupo de apoio nos primeiros dias da cantora Elis Regina em São Paulo, e as cariocas Forma e Elenco – esta última criada por Aloysio de Oliveira, personagem central de nossa música popular na metade de século anterior ao desbravar o mercado norte-americano ao lado de Carmem Miranda e, como o jovem Quartin, igualmente visionário, responsável, via Elenco, pelo lançamento de títulos emblemáticos de Tom Jobim, Roberto Menescal, Nara Leão, Baden Powell, entre outros.

Roberto Quartin e Tom Jobim. Foto: Reprodução / Instituto Antonio Carlos Jobim

Apaixonado por música desde a primeira infância, Quartin estudou com os maestros Moacir Santos e César Guerra-Peixe, No entanto, com prodigiosa maturidade, o jovem Roberto seguiu pela tangente e, para sorte de nós, ouvintes, decidiu fazer seu nome nos bastidores da indústria fonográfica brasileira. Corriam os primeiros meses de 1963 quando o jovem produtor convidou o amigo Wadi Gebara, que cumpriria o papel de diretor artístico do selo, para arquitetar a revolução da gravadora Forma.

Já no primeiro ano de mercado, em 1964, cinco grandes títulos disseram a que veio o pequeno selo carioca: os já citados Inútil Paisagem, do pianista e arranjador Eumir Deodato; Novas Estruturas, primeiro álbum solo do pianista e líder do Bossa Três, Luiz Carlos Vinhas; Deus e o Diabo na Terra do Sol, a impactante trilha sonora original do filme de Glauber Rocha, assinada por Sérgio Ricardo; o álbum de estreia epônimo do grupo vocal baiano Quarteto em Cy; e Esse Mundo É Meu, trilha do longa de mesmo nome dirigido por Sérgio Ricardo, assinada pelo engajado compositor e arranjada pelo maestro Lindolfo Gaya.

Estabelecendo o rigoroso primor de unicidade entre forma e conteúdo presente em todos os títulos do selo, além das experimentações sonoras que, para além do cunho estético, também avançavam no campo da excelência técnica dos registros, os álbuns da Forma também traziam projetos gráficos com capas duplas, pinturas e ilustrações de forte acento modernista.

Em fevereiro de 1965, com o arrebatamento dos primeiros títulos, o jornal Folha de S. Paulo mensurou a importância da novidade: “Uma nova gravadora surgiu no Brasil, com o objetivo de acelerar o avanço técnico que a música brasileira vem registrando nos últimos tempos. Seu nome é Forma, sua sede é o Rio de Janeiro e seu proprietário, Roberto Quartin. Para atuar dentro do programa mencionado, a etiqueta procurou constituir um elenco de ases, tanto assim que adotou o slogan: ‘Os expoentes da música brasileira estão em Forma!’. Assim, os primeiros lançamentos da Forma são discos que salientam os já bem conhecidos Eumir Deodato e Luiz Carlos Vinhas, mas focalizam também uma excelente novidade: o Quarteto em Cy.”

Até o final de 1969, quando Quartin vendeu os direitos de suas obras à Polygram, a Forma lançou mais de 20 álbuns. Na sequência, o produtor aliviou os órfãos da gravadora com o anúncio de um novo selo, singelamente batizado de Quartin e laboratório de uma nova cepa de títulos essenciais, como Victor Assis Brasil Toca Antonio Carlos Jobim (1970), o cultuado Obnoxious (1970), de José Mauro, e Vocês Querem Mate? (1970), do compositor Piry Reis.


O saxonista Victor Assis Brasil (à esq.), um dos artistas do selo Forma, e Roberto Quartin. Foto: Divulgação / Quartin

Na mesma virada dos anos 1960 para os 70, Quartin tornou-se grande amigo de Frank Sinatra. Pesquisador incansável da obra do “Ol’ Blue Eyes”, assinou a produção de discos lançados pela Warner no Brasil, como o sucesso Sinatra & Friends.

Estopim de aproximação que os tornou grandes amigos, Quartin participou também das gravações do antológico álbum que reúne Sinatra e Tom Jobim, Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim (1967). Prova inconteste da recíproca admiração e empatia, o amigo Frank, nos anos 1970, deu carta branca para Quartin esmiuçar os arquivos da Capitol Records e da Reprise Records (selo criado por Sinatra, em 1960) em busca de registros inéditos.

Em 1980, reunida na caixa Lonely at The Top, uma seleção de preciosidades encontradas durante a imersão feita por Quartin foi lançada no Brasil, com as bênçãos de Sinatra, durante a passagem do ídolo norte-americano em um show histórico no Maracanã.

Em 1996, uma compilação com três CDs de gravações históricas da Forma foi lançada com o certeiro título Forma – A Grande Música Brasileira. Oito anos mais tarde, Roberto Quartin saiu de cena subitamente, deixando um enorme legado para a nossa música sem, no entanto, ter a felicidade de ver realizado um antigo desejo seu: o relançamento de todos os títulos da Forma, para torná-los acessíveis aos ouvintes de novas gerações.

Como prova de sua generosidade, todo o material inédito que Quartin possuía do amigo Frank Sinatra, morto em 1998, foi doado aos herdeiros do cantor para ser entregue ao acervo do Museu Sinatra, nos Estados Unidos.

Ainda sem previsão de lançamento, o jornalista Renato Vieira atualmente produz um livro-reportagem sobre a fascinante trajetória da Forma e de seu valioso mentor.

Na sequência, para dimensionar a importância dos dois selos, sugerimos ao leitor do blog da Dublab Brasil a escuta, na íntegra, de dez álbuns divisores, cronologicamente ordenados e produzidos por Quartin e Gebara.

Luiz Carlos Vinhas – Novas Estruturas (Forma, 1964)

Moacir Santos – Coisas (Forma, 1965)

Dulce Nunes – Dulce (Forma, 1965)

Mitchell & Ruff – A Viagem (Forma, 1966)

Vinicius de Moraes e Baden Powell – Afro Sambas (Forma, 1966)

Victor Assis Brasil – Desenhos (Forma, 1966)

Rosinha de Valença – Ao Vivo (Forma, 1967)

Brasil Ano 2000 (trilha Sonora original do filme de Walter Lima Jr.) – Rogério Duprat (Forma, 1969)

José Mauro – Obnoxius (Quartin, 1970)

Piri Reis – Vocês Querem Mate? (Quartin, 1970)

*Texto atualizado e originalmente publicado em 2014 no site da extinta revista Brasileiros Foto de destaque: O saxofonista Victor Assis Brasil, à esq., e o produtor Roberto Quartin em imagem da contracapa do álbum ‘Esperanto’, de 1976 – Divulgação / Tapecar)