As mina pá!, por Luciano Malásia

Tenho acompanhado com uma grande curiosidade a atuação de várias artistas do sexo feminino neste momento aqui no Brasil. Sendo homem, negro e tendo sido criado dentro do contexto patriarcal de um estado onde elas sempre ficaram à margem, vejo com muita alegria as mulheres tendo o merecido destaque à frente de bandas, grupos de percussão, rodas de poesia, coletivos de teatro, agências culturais, fóruns de discussão cultural, operando som e luz, no comando de produtoras de áudio, de vídeo, de eventos e em todo tipo de manifestação cultural que acontece por aí.

Tanto na linha de frente quanto nos bastidores elas estão dominando todos os processos e fazendo a diferença. 

Poderia ficar dias falando sobre isso, mas seria cansativo demais para quem lê estas mal traçadas linhas. Então resolvi listar algumas das coisas interessantes que eu tenho visto por aí, feitos, idealizados ou capitaneados pela sensibilidade feminina.

No texto de hoje vou falar da Bia Ferreira. Jovem talentosa que tem uma voz vigorosa, toca um violão cheio de suingue e tem uma voz com sotaque soul e muita coragem para denunciar em músicas autorais tudo o que sofre neste país uma negra que namora outra negra, e (en)canta falando sobre violência policial, racismo, misoginia, homofobia e outras mazelas ainda mais evidentes em nossa sociedade após eleição de um governo que pretende calar os anseios do que consideram uma minoria com privilégios.

Em sua página do Facebook ela define seu som como “Música de Mulher Preta”. Eu a conheci num dia em que fui chamado na Fatiado Discos para fazer a  sonorização ambiente antes e depois de um show solo dela somente ao violão. Ela chegou pisando leve, sendo educada com todos, na humildade analisando o terreno. Eu fui fazendo um som mais dedicado a vozes femininas para fazer um clima. 

Quando ela sentiu que dava, chegou com seu violão, abriu a boca e todo mundo que estava na rua entrou e cantou as músicas junto com ela, do início ao fim. Público majoritariamente feminino, mas vários caras curtindo com muita atenção. 

Me interessei muito por essa artista cheia de atitude e musicalidade e fui pesquisar sobre sua trajetória. Descobri que ela surgiu como substituta em um musical que homenageava Elza Soares, que é um tipo de exemplo para as mulheres negras envolvidas com música no Brasil. Apesar de não ter experiência e fazer poucos ensaios, chegou pronta e tomou conta. 

Logo descobri um vídeo dela cantando no Sofar Sounds de Curitiba em 2017. “Cota Não É Esmola” é um tipo de manifesto sobre as dificuldades de ser negro em um contexto bastante desfavorável. Fala sobre as teorias de meritocracia e igualdade racial, de como a voz negra é calada, como o relativismo em relação a essa realidade fere e dificulta o dia a dia. 

Chapei. E desde então tenho acompanhado com bastante curiosidade e interesse o caminho que ela vem trilhando. 

No final do ano passado tive o prazer de repetir a dobradinha com ela novamente no mesmo local. E descobri que ela está melhor ainda. A casa lotou mais ainda. Tinha mais gente e ela cantava com o apoio de mais vozes. Muitas delas de pessoas brancas que entenderam mensagem que ela quer passar. 

Violão e voz.
Coragem
Afinada e certeira.
Beatbox.
Peito aberto.
Malandragem.
Carisma.
Muita verdade.

Tive a honra de ouvir alguns sons do disco que ela está finalizando e deve lançar em breve. Músicas poderosas de mensagem forte. Todas são potenciais hits. 

É muito talento. Procure conferir se tiver oportunidade. Garanto que vai ser legal. 

Luciano Malásia
Músico e DJ. Escreve quinzenalmente no blog da Dublab Brasil.