Donato Essencial, por Marcelo Pinheiro

Donato Essencial

Nos 85 anos do pianista, compositor e arranjador acriano, Dublab Brasil apresenta uma entrevista originalmente publicada em 2014 na extinta revista Brasileiros. Conduzida pelo jornalista Marcelo Pinheiro, apresentador do programa Quintessência – Música Atemporal Brasileira, a conversa, documentada às vésperas dos 80 anos de Donato, aborda os bastidores de oito dos mais expressivos álbuns da extensa discografia do artista

Por Marcelo Pinheiro

Donato foi a maior revelação da música brasileira nos últimos 40 anos. E na categoria ‘Artista Jovem’.” Quem dimensiona a importância do pianista, compositor e arranjador acriano João Donato, em depoimento exclusivo para esta reportagem de Brasileiros, é o escritor Ruy Castro. Em Chega de Saudade e A Onda que se Ergueu no Mar, livros de Ruy dedicados à intensa revolução da bossa nova, o biógrafo elevou Donato a um patamar equivalente ao de João Gilberto, atribuindo a ele o papel de dedicado agente de modernização de nossa música popular e um dos artífices do novo gênero musical que conquistou o mundo.

Nascido em Rio Branco, no Acre, Donato migrou com sua família para o Rio de Janeiro, aos 14 anos, idade em que pretendia se tornar aviador. O daltonismo, no entanto, obrigou o adolescente a mudar de planos e progressivamente se deixar seduzir por elevações de voos musicais. Num átimo, o intuitivo garoto tornou-se exímio acordeonista, trombonista e pianista.

Do embrionário manejo da sanfona, foi no manejo das teclas brancas e pretas do piano, parceiro infalível para o registro de seu   toque de cadência irresistível e inconfundível, que Donato seduziu ouvintes do mundo todo – primeiro com sua música instrumental de pioneiro e desbravador acento moderno, depois com seu canto sussurrado, expresso somente aos 39 anos, no álbum Quem é Quem (razão pela qual Ruy Castro o chamou de “revelação” na abertura desta entrevista).

Em 17 de agosto, Donato completará 80 anos, quase 70 deles dedicados à música. Antecipamos nossa homenagem com a deliciosa entrevista editada a seguir, documentada na longa conversação telefônica em que João Donato falou dos bastidores de álbuns fundamentais de sua trajetória, alguns gravados nos Estados Unidos, outros no Brasil. Viva, João Donato!    

Brasileiros – Seus dois primeiros LPs foram gravados no Brasil, em 1962, durante uma breve passagem. A Polydor não tentou te manter no País?

João Donato: Eu morava nos Estados Unidos e o Muito à Vontade (o primeiro dos dois álbuns de 1962) foi feito na Polydor, depois de uma série de apresentações que eu fiz com João Gilberto na Itália. Passamos seis semanas tocando juntos em um festival e, no intervalo dessa breve passagem minha pelo Brasil, a gravadora resolveu fazer logo dois discos para comemorar meu retorno, Muito à Vontade e A Bossa Muito Moderna de Donato e seu Trio. Mas eu não podia ficar, pois tinha vindo com minha filha, Jodel, que era recém-nascida.

E como foi voltar a tocar com o baterista Milton Banana e o baixista Tião Neto nessas gravações?

Uma delícia. Éramos parceiros de longa data, e isso facilitou as gravações, porque já tínhamos muita intimidade por tocar juntos nas madrugadas do Beco das Garrafas (reduto de grandes instrumentistas na Rua Duvivier, em Copacabana).

Você já havia composto os temas antes de voltar ao Brasil, ou eles foram escritos durante as gravações?

Eu já tinha algumas ideias encaminhadas, mas a maioria dos temas surgiu no estúdio. Tanto que eles nem sequer tinham nomes. A gente dizia coisas como “vamos nessa?”, “só se for agora!”, “naquela base!”. Eram comentários que a gente fazia enquanto ouvíamos as primeiras gravações e foram ficando esses nomes mesmo.

Antes desse breve retorno, como foi tocar nos Estados Unidos com ícones do jazz latino da dimensão de Cal Tjader, Mongo Santamaria e Tito Puente?

Tive muita influência deles. Meu maior aprendizado, nos Estados Unidos, foi da música latina e do jazz afro-cubano. Mas toquei por mais tempo com a Orquestra de Johnny Martinez, a mais popular da noite de Los Angeles. Johnny gostava muito de mim e permitia que eu saísse para fazer outras coisas. Depois de tocar com ele, fui diretor musical da Astrud Gilberto. Trabalhei com ela no primeiro disco (The Astrud Gilberto Album, lançado pela Verve, em 1965) e também fiz a direção musical de vários shows dela, apresentações que percorreram os Estados Unidos. Também fiz com Astrud alguns shows em Londres.

Em 1965 você gravou um disco com o saxofonista Bud Shank (Bud Shank and His Brazilian Friends), um LP que poderia ter sido assinado em coautoria, porque estão registrados nele quatro temas escritos por você.

Levei meu acetato (uma matriz do LP Muito à Vontade) para os Estados Unidos e, recomendado por amigos, como Clare Fischer e Victor Feldman, procurei algumas pequenas companhias de jazz. Tive a ideia de falar também com Richard Bock, diretor da Pacific Jazz, selo que gravava discos de artistas de quem eu era grande fã, como Gerry Mulligan e Chet Baker. Fui mostrar meu disco para ele ouvir. Bock gostou e me disse: “Bud Shank vem aqui, amanhã, para combinarmos detalhes de um novo álbum e eu ainda não pensei como será o disco. Quem sabe vocês não fazem algo juntos”.

Você e Bud já se conheciam?

Ainda não. Só conhecia suas gravações. Ele havia lançado um disco com o Laurindo de Almeida, chamado Brazilliance, que eu gostava muito, porque era música brasileira com sotaque de jazz. O Richard me ligou, logo após esse encontro deles, e disse: “Bud gostou da ideia. Ele quer gravar suas músicas”. Foi então que convidei os músicos que, naquele ano, acompanhavam o Sergio Mendes nos Estados Unidos: Tião Neto (contrabaixo), Chico Batera (bateria) e Rosinha de Valença (violão). No ano seguinte, o mesmo disco foi relançado por lá, mas desta vez com meu nome e o título Sambou Sambou. Foi o começo de minhas aventuras no mercado dos Estados Unidos.

Aventuras que culminaram em outros três álbuns, um deles, A Bad Donato, talvez o mais experimental e internacionalmente cultuado da sua carreira.

Exatamente. Antes de fazer o A Bad Donato, primeiro fui convidado a gravar, em Nova York e com o maestro Claus Ogerman, o New Sound of Brazil: Piano Sound of João Donato. Pouco depois, viajei para o Japão com o conjunto Bossa Rio, do Pery Ribeiro e da Gracinha Leporace (cantora brasileira, também radicada nos EUA e então casada com Pery). Eles estavam sem pianista para fazer os shows, porque o músico deles tinha conseguido visto para viajar. Foi então que eles me convidaram. Fizemos uma semana de shows. E foi nessa viagem que conheci o Bob Krasnow, diretor da Blue Thumb (gravadora americana que lançou Alegria!, o segundo álbum do Bossa Rio de Pery). Logo que fomos apresentados ele falou para mim: “Donato, quando você toca, eu me arrepio todo. Assim que você voltar para os Estados Unidos me procure, pois quero muito fazer um disco com você. Grave com quem você quiser, com os instrumentos que você quiser, do jeito e onde você quiser, mas grave”. Quando voltei, não dei muita importância, mas não deu uma semana e o Bob me procurou para fazer o tal disco que havíamos combinado. Ele disse: “Vá às lojas e alugue os instrumentos que você julgar necessários para o disco. Quando estiver tudo pronto, você me telefona que a gente marca o estúdio e grava”. Fui a várias lojas, comprei e aluguei uma série de instrumentos, entre eles um Clavinet (teclado de timbre lisérgico, então em voga por ter sido utilizado por Steve Wonder em Superstition), um sintetizador da RMI e outro da Yamaha. Reuni o que havia de mais moderno na época.

 

 

É verdade que em Lunar Tune, um dos temas do A Bad Donato, você gravou o solo sob efeito de LSD?

Sim, aconteceu, porque o pessoal da gravadora era muito doido. Foi Bob que insistiu para eu tomar LSD: “Não se preocupe, Donato. É só na hora de você fazer o solo que vai bater”. Ele foi me cozinhando com esse papo em banho-maria, durante as gravações, até me convencer. Quando chegou perto da hora de gravar esse solo, ele me deu uma coisa que parecia uma pedrinha de isqueiro. Rapaz! Tomei aquilo e fiquei doido. Saí metendo a mão em tudo que era botão do teclado. O tempo todo eu via raios saindo das minhas mãos e do meu corpo. Era pra ser só para a gravação do solo, segundo ele, mas a loucura durou um tempão. Só passou no dia seguinte. Eu via raios luminosos saindo do meu corpo e jurava que todo mundo estava vendo o mesmo que eu via.

Ouvindo a gravação é perceptível que existe ali algo de desconexo, não só no solo, mas na construção do tema.

Sim. Foi tudo bem maluco. Eu tinha a sensação de que havia uma fitazinha que deslizava no teclado do piano e fazia “uuuuulll, uuuuull”, mas continuava apertando as teclas. E a confusão ficou ainda mais doida, porque eu havia colocado um wah-wah (pedal de efeito que tem a sonoridade do nome) no teclado. Mas valeu como experiência. Por aqui o disco só foi sair quase 40 anos depois. É um álbum estranho, mas que lá fora causou grande impacto no meio musical. O que fizemos ali acabou virando moda, mas tudo aconteceu por acaso. Eu estava procurando, estava aberto, experimentando.

Em dezembro de 1972, você volta para o Brasil e idealiza outro clássico de sua discografia, o Quem é Quem, que só agora teve o privilégio de tocar ao vivo pela primeira vez.

Antes do Quem é Quem, nos Estados Unidos, fiz outro disco instrumental com o Eumir Deodato, o Donato/Deodato, que saiu pela Muse Records. Depois disso é que voltei de vez para o Brasil. Deixei o disco incompleto e pedi a ele para finalizar. Das seis faixas, deixei apenas três gravadas. Ele acrescentou instrumentos, fez a mixagem e ficou um disquinho bastante simpático.

Claro, Donato/Deodato é outro álbum muito cultuado. Não só no Brasil. No entanto, li em algumas matérias que, em meio às gravações, vocês romperam. Isso procede?

Não, não teve nada disso. Sou muito amigo do Eumir. Gosto muito dele. E é até bom que fique claro que não houve problema algum entre nós, que estamos apenas distantes (Deodato mora nos Estados Unidos desde 1967). Admiro e sou muito fã do Eumir, desde quando nos conhecemos no final dos anos 1950, no Rio de Janeiro.

Voltemos então ao Quem é Quem, que, além de marcar sua volta ao Brasil, é seu primeiro álbum cantado.

Eu gravava pela Odeon, e assim que voltei ao Brasil fui encontrar o Marcos Valle na casa dele, pois tinha combinado de gravar um disco sob orientação e produção dele, que também era da gravadora. Até então, eu só havia gravado música instrumental, mas, nessa noite, o Agostinho dos Santos também estava na casa do Marcos, ensaiando uma música que ia interpretar em um festival, e ele me disse: “Pô, João, mas você vai, de novo, gravar um disco tocando piano?! Se fosse você, eu gravaria cantando. Você tem músicas lindas, mas que ninguém canta. Coloque letras e cante, pô!”. A coisa surgiu assim, como ideia do Agostinho, e funcionou. Foi depois disso que comecei a cantar. E o disco é considerado, hoje, muito importante, pela crítica musical. Já entrou em várias listas de discos mais importantes do Brasil.

Mas, no lançamento, ninguém deu muita atenção, não é? Tanto que você nem chegou a fazer shows dele.

Exatamente. O disco nem lançamento oficial teve. Foi para as lojas sem ninguém dar a mínima, e resolvi fazer um “lançamento” maluco na Igreja do Outeiro da Glória. Chamei a Paula Saldanha, que era repórter da Rede Globo, levei uma caixa de LPs e, do topo da escadaria, lancei vários discos no ar. A turma correndo atrás para tentar pegá-los e o pessoal da Globo filmando tudo. Depois que fiz os shows do Quem é Quem, há alguns meses, lembrei dessa história, e estão agora tentando recuperar as imagens.

Por que somente no Quem é Quem você passou a compor em parceria com seu irmão, o poeta Lysias Enio?

Eu fui morar nos Estados Unidos em 1959. Lysias ficou por aqui. Eventualmente ele escrevia alguma coisa para mim, mas nos encontrávamos muito pouco, até que voltei no final de 1972 e surgiu a ideia do disco cantado. As gravações estavam marcadas para a semana seguinte, ainda não havia letras para todas as composições e foi uma correria danada. Pedimos letras para Marcos Valle, Dorival Caymmi, Paulo César Pinheiro, Paulo Sérgio Valle, João Carlos Pádua, além do meu irmão. Nessa correria, lá pelas tantas, perceberam que a mesma música acabou indo parar na mão de mais de um letrista, mas Lysias ficou todo contente porque também havia entrado letras dele.

A letra do Caymmi é, na verdade, uma música baiana de domínio popular, não é essa a história de Cala Boca, Menino?

Verdade. Cala Boca, Menino era apenas um riff, um loop que eu inventei no estúdio e ia dar a ele o nome de Vietnam e Coca-Cola. Mas aí a Nana (filha de Dorival, que participou de Quem é Quem) começou a cantar em cima “Cala boca, menino / seu pai logo vem / ele foi pro Cabula / foi comer jaca mole, da cabeça dura”. Eu falei: “Pô, que música é essa Nana?”. Ela disse: “É do meu pai”. Liguei na hora para o Caymmi, pedi a ele autorização para gravar a música, daí ele disse: “Não é minha, João. Mas eu assumo. Põe meu nome aí!”.

Depois, você emplaca outro grande álbum com Gilberto Gil. Como foi feito o Lugar Comum?

Nessa época, eu estava tocando direto com a Gal Costa. Fiz com ela o Cantar (álbum da cantora, de 1974), e o Gal Canta Caymmi (sucessor de Cantar, de 1976). Passei a ter também muitos encontros com Gil e Caetano, que era diretor artístico dos shows da Gal. Por conta disso, eu ia muito à casa do Caetano e estavam sempre por lá o Gil, a Bethânia. O pessoal da Odeon me deixou ir embora porque se queixava que meu disco não tinha atingido um índice satisfatório de vendas. Pior que depois o Mariozinho Rocha (um dos diretores da Odeon) tentou me chamar de volta: “Nós pensamos melhor e não tem problema algum se o seu disco não vendeu tanto, porque aqui na Odeon tem outros artistas que também não vendem muito e nem por isso saíram da gravadora. Se eles continuam na companhia é porque são nomes de prestígio, como você”. Mas aí já era tarde. Eu estava trabalhando com a Gal e a turma dos baianos, que era empresariada pelo Guilherme Araújo. Toda essa turma gravava pela Philips. Disse então ao Mariozinho que não podia voltar, porque eu já havia me comprometido com Guilherme e a Philips. Foi então que nesses encontros com Caetano para o show da Gal ele acabou fazendo a letra de a , versão que ela gravou no Cantar. Pouco depois, o Gil fez um monte de letras para mim e gravamos o Lugar Comum.

De sua extensa discografia, você tem algum título preferido?

Dos discos recentes gosto muito de um que gravei em 2010, o Sambolero, que, inclusive, ganhou o Grammy Latino.

E como está a agenda em celebração aos seus 80 anos de vida? Recentemente você mencionou em entrevistas um novo projeto, que deve envolver bossa e música erudita.

No início de julho, devo gravar um novo disco instrumental, e logo sairão também outros dois registros feitos ao vivo – Live Jazz in Rio vol. I e II, pela Discobertas, que foram gravados em dezembro do ano passado. Marcelo Fróes (responsável pelo selo carioca) vai também lançar uma caixa com três álbuns inéditos meus, dos anos 1970 e 80. Também estou preparando essa peça sinfônica baseada em temas de Ravel e Debussy, mas que será tocada com piano, baixo e bateria, para fazer algo mais pop. A bossa, o jazz, a música de cinema, têm muita influência de Debussy e Ravel. Também fui convidado a fazer dois discos no Japão – e ainda tenho uma pendência com meu filho, Donatinho, quero mesmo gravar com ele. O ano vai ser de muito trabalho.

Olhando em retrospectiva, que balanço você faz desses 80 anos de vida e quase 70 de carreira, Donato?

Me sinto realizado, satisfeito e muito contente com o rumo que minha vida levou. A música foi a arte que resolvi abraçar, quando fui reprovado como piloto de avião por causa do meu daltonismo – e desde muito cedo me voltei totalmente para a música. Não me arrependo de nada. Faria tudo de novo – é claro, com alguma melhora, aqui e ali.